Complexo de Nardoni

(texto de Diana e Mario Corso, psicanalistas, publicado em 03 de abril de 2010 no jornal Zero Hora)

A mitologia geralmente nos ajuda nas tragédias humanas: sempre podemos invocar uma personagem prototípica para uma situação real. Os romanos tinham as Fúrias (para os gregos Eríneas), terríveis deusas da vingança. Mas não era qualquer vingança que as despertavam, elas infernizavam a vida de quem derramou o sangue de seu sangue. E elas estavam lá, do lado de fora do tribunal, onde era julgado o casal Nardoni, havia uma multidão “enfurecida”, que não fazia outra coisa que esperar para linchar.

Mas no caso do assassinato da pequena Isabella, a mitologia nos deixa na mão. Não é por falta de pais filicidas, mas estes geralmente são como Cronos, e o faziam por que queriam impedir a nova geração e, logo, a sua decadência. Laio, pai de Édipo, também tentou livrar-se do filho predestinado a eliminá-lo. Ou ainda Licaon que para enganar os deuses sacrifica um filho. Até na bíblia, Abrão quase mata seu filho, num sacrifício necessário para provar sua fidelidade a Deus. Porém, de um homem que mate um filho para viabilizar seu amor por uma outra mulher não temos notícia.

Um historiador pode nos lembrar de reis que, em brigas por sucessão, devem ter matado um filho por razões de estado, ou até em defesa da sua libertinagem, mas suas histórias não são mitos. Estes são como uma espécie de esquema que usamos para decodificar nossa alma e os fatos de uma vida. Por isso o menu é vasto, a maior parte de nossas dores, medos e desejos têm seus personagens correspondentes, que protagonizam tramas que lhes dão corpo, tornando visível e compreensível o que está em nosso interior.

Falta um homem para rivalizar com Medéia, afinal ela mata seus filhos para atingir o pai deles, que o deixou por outra. O mundo está cheio de Medéias, mulheres que cultivam uma paixão ao avesso pelo ex-marido e destroem tudo em volta: o que era amor e fertilidade torna-se ódio e destruição. Depois de deixadas só vivem para a vingança.

Mas onde está o mito, versão masculina, que possa ser evocado da história do pai que destrói seus filhos por abandono quando funda um novo lar? E por favor, para cada Medéia existem dezenas de pais que somem da vida de seus filhos, como se eles tivessem morrido junto com o amor que acabou. Quando deixam de amar a mãe de seus filhos, desligam-se afetivamente também deles. Podem até visitá-los esporadicamente, pagar a pensão, lembrar deles no natal, mas não existe uma real conexão. O filho é um incômodo peso dum passado que ele quer esquecer. Qualquer terapeuta pode corroborar esse fato, pois somos nós que depois tentamos colar os cacos desses filhos, seres frágeis, não raro pouco apegados à vida. Muitas vezes, vivendo uma depressão que não tem outro fundo do que a espera inútil de que finalmente o pai venha buscá-los para passear.

Há mães que abandonam seus filhos, deixando-os aos cuidados da própria mãe ou de parentes acolhedores, desistem ou não se engajam na causa dessa maternidade. Da mesma forma, muitos homens tomam a chegada de um filho como uma carta bomba, a qual não tem a mínima intenção de abrir, no máximo reconhecem a paternidade e encaram a pensão como uma espécie de extorsão. Essas são situações nas quais os pais nem começam a história como tais. Tampouco é disso que se trata desta feita.

Neste caso, temos a eliminação de um filho, por um homem, como um sacrifício para provar a devoção a um novo amor, ou para atingir ou ainda livrar-se do antigo. Mais que pais, trata-se de amantes que procriaram, colocaram no mundo, querendo ou não, encarnações duma história de amor e ou sexo, e então geraram um fato indelével daquele laço. Porém não existe ex-filho, a existência e sobrevivência dessa pessoa que eles criaram, esse ser cujos traços guardam a combinação dos pais, pode ser muito romântica para muitos casais, mas é um pesadelo para outros. Para esses homens o filho é um zumbi, um morto vivo que ameaça devorar sua fantasia de começar de novo, de zerar a vida num novo idílio com outra mulher, ou mesmo sua existência corrói sua pretensa liberdade.

Nada sabemos do amor entre o pai de Isabella e sua nova mulher, com quem constituiu outra família, tampouco do romance que do qual a menina se originou. Isso não vem ao caso, estamos tomando essa situação, na qual um casal se une para eliminar uma criança de uma união anterior, como tragicamente prototípica. Poderíamos tomá-la como um mito, no qual a criança sobrante de uma relação anterior é insuportável para a nova mulher. Seu marido encara a intolerância dela como ato de amor: ela o queria só para si, o passado que não a inclui deve ser apagado; ele consente com o sacrifício daquele resto do passado, considera que um filho não deve sobreviver ao amor, pois para sempre o representará.

O abandono, este sim freqüente na realidade, por parte do pai que parte e se desliga da prole, e recomeça uma família a cada nova paixão, não é tão trágico. Neste caso, os filhos não precisam morrer, mas não devem esperar dele mais que quase nada. Isso ocorre por que é a mulher que cumpre a função de colocar o pai em seu lugar, designá-lo, ciceronear o encontro entre pai e filho. Para muitos homens, sem a intermediação dela, não persiste esse vínculo que não se libertou desse expediente de origem. O que sucumbe é uma paternidade que não terminou de se instalar.

Nem sempre o homem da mãe é pai de seus filhos, há muitos deles que nunca se tornarão tais, por mais que reproduzam. Para estes, sua prole é carne a serviço de obsessões amorosas, darão filhos a elas e os deixarão de lado quando tudo terminar. Nardoni tomou isso ao pé da letra, emprestando uma face trágica a uma seqüela indesejável da grande conquista jurídica que foi o divórcio.

Consultado, o professor Moreno, que sempre nos refresca a relação com os mitos, sugeriu para este drama um parentesco com Macbeth, um homem que faria qualquer coisa em sua subserviência.

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