Sempre amamos a pessoa certa, apesar dela poder não ser a pessoa certa para a nossa vida, ou para o resto de nossa vida, ou ainda para fazer aflorar o melhor da gente.
 
 
Amamos sempre a pessoa certa, e ele ou ela é sempre o príncipe encantado ou a bela princesa, apesar de poder sê-lo somente por uma hora, um dia ou um ano. O resto do tempo junto é ganho pela renda gerada naquele momento nutriente do amor.

Há sempre uma razão importante pela qual amamos uma pessoa, e entendo “amar” em sentido amplo e geral. Não falo necessariamente do amor fiel e constante, firme e consciente, mas de qualquer amor que no mínimo resista a alguns naufrágios e turbulências. As razões que levam a amar uma pessoa não são obviamente “racionais”, nem por isso deixam de ser motivos poderosos, causas reais e eficazes. E também não quer dizer que sejam motivos nobres, justos e bonitos.
 
Apesar de haver estupidez, neurose e muitos outros ingredientes pouco agradáveis que atuam nas relações, não os usaria como lentes principais para compreender a situação. Fazer isso significaria situar-nos numa antropologia negativa e no paradigma dicotômico cristão tradicional que vê o ser humano dividido entre bem e mal, onde sua salvação é agarrar-se ao bem e reprimir o mal.
 
Proponho outra perspectiva, seguindo Jung e Silvia Montefoschi. O paradigma de base neste caso é o da evolução da consciência. Tudo serve e tudo faz parte do percurso. Por este motivo, nos deparamos com a experiência que diz respeito ao que devemos trabalhar, aprofundar, desenvolver; ou seja: ao que precisamos conhecer em função da nossa evolução. O que for mais importante rumo à esta expansão estará no coração da experiência sentimental à qual nos vinculamos. Prazer e dor são secundários.
 
O gancho que faz nascer uma relação pode estar numa problemática psicológica que a pessoa precisa encarar e resolver. Neste caso, nada melhor do que materializar uma inteira situação para que possamos observar com clareza as diversas facetas do problema que precisamos superar (que é “problema” somente porque restringe nossos movimentos existenciais). Quando sairmos dela, teremos resolvido nossa questão e estaremos prontos para uma nova etapa.
 
Outras vezes, o gancho está na identidade de modelos de consciência: é maravilhoso ter alguém com quer trocar idéias e sentir de forma parecida. A experiência provoca uma aceleração de consciência que produz prazer e gratificação.
 
Há ainda uniões que nascem de resgates de vidas passadas. Quando ocorrem porém, possuem sempre um sentido evolutivo para a pessoa nesta vida e ajudam no clareamento de suas dinâmicas psicológicas atuais.
 

Em nenhum desses casos, o “amor” significa necessariamente “para sempre”. O princípe encantado pode revelar-se, após vários anos, um sapo. Será que ele “decaiu” ou não será que nós crescemos superando a fase inicial? Porque somente sapas se encantam com sapos, e vice-versa.

 
Adriana Tanese Nogueira
  
Fonte:
PSICOLOGIA DIALÉTICA
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